O blog das mamaes no Reino Unido

Criando Brasileirinhos Mundo Afora – China

Mais uma entrevista com uma mamãe brasileira morando e criando os filhos fora. Hoje, a Sandra, conta como e ser mãe na China.  Fale brevemente sobre você e o que a levou a morar no pais onde está: Meu nome é Sandra Sampaio, tenho 46 anos de idade, sou carioca, mas morei durante 18 anos em Curitiba onde eu trabalhava como advogada antes de nos mudarmos para a China, acompanhando o meu marido a trabalho. Já estamos morando aqui em Shanghai há mais de 4 anos e regressaremos ao Brasil este ano, se Deus quiser! Quantos filhos tem e qual a idade deles? Tenho três filhas: Thays, Paula e Lara que estão atualmente com 18, 14 e 10 de idade, respectivamente. Todas nasceram em Curitiba e chegaram aqui em Shanghai com 14, 10 e 6 anos, na época. Como é ser uma mamãe brasileira no país onde mora? Aponte semelhanças e diferenças se comparado a mamães locais. Minha experiência como mãe aqui tem sido muito boa. Como no Brasil, as mulheres chinesas trabalham muito, mas aqui, quem cuida das crianças geralmente são os avós. Por isso, mesmo nas escolas internacionais onde minhas filhas estudam, muitas vezes cruzamos com avós nos passeios, nas reuniões de pais e nos demais eventos. Acredito que aqui, a maior diferença entre nós estrangeiras e as mães locais, é justamente a questão do trabalho fora de casa. Pois como as expatriadas casadas, geralmente não trabalham fora e podem contar com a ajuda de boas empregadas chinesas, nós temos muito mais tempo para estar com as crianças, as amigas e para passear. O problema na China é o consumismo. Nós chegamos e somos logo convidadas a conhecer os Shoppings, os mercados de roupas e sapatos, de coisas fakes e originais, pois tem tudo para todos os gostos e bolsos. É preciso controlar a vontade de comprar tudo que vemos, gostamos ou podemos pagar, mas que muitas vezes não são artigos necessários, pois a sedução vem dos preços que são realmente mais baixos. Esse impulso de consumismo acontece com todos, brasileiros ou não, com as mulheres, as crianças e até com os maridos, pois cada um acaba sendo seduzido em seu ponto fraco: brinquedos, eletrônicos, roupas de grife, bolsas de marca… Com quantos anos a criança começa a escola e qual o horário escolar? A criança come na escola ou leva lancheira de casa? Escola particular ou pública? Eu não tenho conhecimento de como as escolas chinesas funcionam. Mas é comum ver as crianças a partir dos 4, 5 anos indo para a escola normalmente. Não vemos crianças na rua, durante o período escolar, pois aqui as escolas públicas chinesas também funcionam em período integral. Quando chegamos aqui, minhas filhas foram para escolas internacionais, sem nenhum amiguinho brasileiro na mesma classe e elas estranharam passar praticamente o dia inteiro na escola, pois no Brasil elas estudavam apenas meio período, como é o usual. Porém, até onde eu sei, as escolas chinesas também são em período integral e as minhas filhas se adaptaram rápido, apesar das reclamações do pouco tempo para brincar e do excesso de dever de casa que os professores aqui passam. Nas escolas internacionais, geralmente as crianças que não tem inglês como primeira língua, tem aulas de reforço no inglês, além das aulas normais de Chinês, matemática, educação física, artes. Também são oferecidas muitas aulas extracurriculares como violino, piano, dança, esportes…  Assim, muitos dias da semana elas ficam além do horário normal na escola, que vai das 8:15 às 15:30hs, por causa destas atividades extra classe. Uma das minhas primeiras provîdências ao iniciarem as aulas foi providenciar uma lancheira, pois as minhas filhas menores estranharam a comida asiática. Elas passaram a levar marmita de casa com comida brasileira para almoçarem. Porém, decorrido algumas semanas, a minha filha caçula, então com 6 anos, pediu-me para eu não colocar mais feijão para ela comer. Como ela passou a fazer este pedido reiteradamente, eu descobri que ela estava recusando-se a comer feijão na escola, porque um amiguinho estava implicando com aquela comida “preta” que ela estava levando. Nunca mais ela comeu feijão fora de casa! rs Você trabalha ou é mamãe em tempo integral? Você tem empregada/diarista – como é a sua rotina emprego/escola/casa? Eu não trabalho aqui na China e costumo brincar que estas minhas “férias” estão me deixando mal acostumada! É que na minha primeira experiência como mãe fora do Brasil, eu tinha apenas a Thays com 2 anos e meio de idade e como nós moramos em duas cidades diferentes na Alemanha, ficamos sempre em aparthotéis, onde apesar deu não precisar limpar o apartamento, tinha de lavar, passar e fazer a comida. Quando surgiu a oportunidade de sermos novamente expatriados, confesso que gostei da idéia de poder ter mais tempo para dedicar-me às minhas três filhas, só não imaginava que viríamos para tão longe e enfrentar uma cultura tão diferente! Aqui em Shanghai eu tenho empregada e motorista, o que é ao mesmo tempo bom e inconveniente, pois você acaba ficando muito dependente e sem nenhuma privacidade. Por outro lado, como a casa é grande e com 3 filhas em idades diferentes, os eventos sociais e escolares são muitos. Então, por poder ser mãe em tempo integral, eu sempre posso participar de tudo sem me preocupar com os cuidados com a casa, a roupa, o cachorro… faço apenas a comida. As empregadas chinesas são metódicas, fazem sempre o serviço do mesmo jeito, na mesma sequência, mas são rápidas no trabalho. A minha primeira Ayí (como elas são chamadas aqui) aprendeu comigo a fazer alguns pratos brasileiros e chegava mesmo a fazer um feijão melhor do que eu! Tudo bem que eu não sou uma exímia cozinheira (não gosto), mas esta foi outra grande experiência daqui, eu aprendi a cozinhar melhor. (rs) No início, eu não queria mesmo trabalhar fora de casa, pois já vinha cansada do meu corre corre no Brasil e da falta de tempo para mim, para o marido e para as crianças. Então, fui estudar um pouco de chinês, inglês e também fui fazer yoga, acupuntura, pilates, massagens, enfim, aproveitei a oportunidade para cuidar mais de minha saude fisica, mental e espiiritual. Temos um grupo de oração semanal do terco e um outro grupo de estudos biblicos, o que me oportunizou viver mais e melhor a minha fé cristã. Minhas filhas menores conseguiram concluir a catequese e até fizeram a Primeira Eucaristia na Igreja Católica que frequentamos aqui em Shanghai. Desta forma, além de passear muito conhecendo os diversos lugares desta cidade linda que é Shanghai, eu pude várias vezes, ser mãe voluntária também nos passeios da escola, participar das excursões organizadas pelas mulheres brasileiras, trabalhar como voluntária em campanhas de doação e até descobrir aptidões pessoais que eu não desenvolvia no Brasil por falta de tempo e oportunidade como trabalhos manuais, costurar, cozinhar… Que língua é falada na sua casa, no caso do seu marido não ser brasileiro? Como somos todos brasileiros, em casa nós só falamos em português. Mas as meninas, entre elas, as vezes nos provocam falando em chinês quando não querem que a gente entenda o que elas estão comentando..  O/s seu/s filho/s falam português? Como você passa a cultura brasileira e a língua para os seu/s filho/s? Com exceção da minha filha mais velha que já estudava inglês num cursinho no Brasil, as menores não sabiam nada além do português quando chegamos em Xangai. Contudo, justamente as menores, foram as primeiras a começar a falar chinês e com muita facilidade aprenderam e domiraram o inglês. Porém, apesar de falarmos todos português em casa, depois das crianças estarem completamente adaptadas na escola bilingue (inglês/chinês), em poucos meses a minha filha caçula, já com 7 anos de idade, um dia escreveu Brasil com ”ç”! Isso mesmo “Braçil”. Foi então que eu me desesperei e percebi que elas corriam o risco de perderem o vocabulário em português e serem prejudicadas quando regressássemos para casa. Então resolvi estimulá-las a lerem mais em português, escreverem para os amigos e parentes cartinhas e emails, além de organizar aulas de português junto com outras duas mães brasileiras que eram professoras formadas no Brasil. A escola internacional onde as minhas filhas menores estudam, deu-nos total apoio disponibilizando as salas de aulas e todo o material necessário. Foi assim que eu também comecei a ajudar, chegando mesmo a dar aulas de português para os alunos brasileiros. Desta forma, as crianças não perderam o idioma materno e ainda agregaram o inglês e o chinês fluentes. Nossa filha mais velha, que concluiu o high school aqui na Escola Britânica e chegou a ser aceita numa das universidades da Inglaterra para onde aplicou, também conseguiu regressar em julho do ano passado para o Brasil e preparar-se num cursinho intensivo de pre vestibular, conseguindo – graças ao seu bom português - ingressar na UFRJ para o curso de Engenharia de Alimentos. Para nós foi a certeza de que o trabalho de preservação do nosso idioma e cultura é muito importante. Como são comemorados os aniversários infantis no país onde mora? Você celebra o dos seus filhos “a brasileira”? Eu e meu marido sempre fizemos muitas festas no Brasil e quando chegamos aqui em Xangai, a nossa filha mais velha estava para completar 15 anos. Com a valiosa ajuda de uma amiga brasileira que já tinha mais experiência em organizar festas maiores, comemoramos o aniversário da Thays bem ao estilo brasileiro no salão de festas de nosso condomínio. Contratamos um restaurante italiano para servir o jantar e todo o resto foi preparado por nós brasileiras: o bolo de aniversário, os doces, a música e o nosso tradicional baile. Minha filha dispensou o vestido branco longo e optou por usar um tipao (aquele vestido tradional chinês) na cor vermelha. Tivemos fogos de artifício (os chineses adoram usa-los nas comemorações mais importantes), vídeo com homenagem, lembrancinhas para os convidados e na hora da dança todos caíram no samba, rock, forró, axé… tudo com direito a máscaras, fluflus, fumaça de gelo seco, luzes pirotécnicas… os convidados brasileiros e estrangeiros divertiram-se muito e, principalmente os chineses comentaram que nunca tinham participado de uma festa tão animada como a dos brasileiros. Geralmente os chineses saem para jantar fora de casa apenas na companhia dos amigos mais íntimos e dos pais. Não fazem festa grande e nem sempre levam a família quando são convidados por colegas de trabalho, comparecendo muitas vezes sozinhos nos eventos infantis em que são chamados a participar. Depois desta primeira festa que fizemos aqui, sempre comemoramos todos os aniversarios de casa como sempre fizemos no Brasil, inclusive os 50 anos de idade do meu marido, o almoço que fizemos no dia da Primeira Eucaristia das meninas, Natais, Reveillon, Páscoa, Semana Santa, sempre com muita alegria e ao estilo brasileiro, que sempre encanta os estrangeiros e divulga a nossa cultura. Todos os amigos de nossas filhas adoram a comida brasileira!  Como você lida com a falta da família por perto (pelo menos da sua parte se não tiver ninguém)? Com que frequência você leva os seus filhos ao Brasil? Como eu já morava longe da minha família lá no Brasil, pois como os tios e as avós das crianças moram no Rio de Janeiro e nós morávamos em Curitiba, ao contrário de alguns amigos brasileiros que chegam aqui sentindo muita falta da família, nós já estávamos acostumados a sermos apenas nós, apesar de visitarmos 2 vezes no ano nossos parentes em São Paulo e no Rio de Janeiro. Isso ajudou aguentarmos os primeiros 12 meses antes de podermos viajar para visitar o Brasil. Inicialmente, as minhas filhas sentiam mais a falta de alguns amiguinhos de Curitiba, porque no início só tinham alguns poucos brasileiros para brincar. Porém, em pouco tempo, já estavam totalmente introzadas e se relacionando muito bem com os estrangeiros também, o que ajudou na adaptação e minimizou a saudade dos familiares e amigos do Brasil. Nós costumamos ir ao Brasil uma vez por ano para visitar nossos parentes e amigos. Você cozinha culinária brasileira? Que tipo de pratos você faz em casa para a família? Você encontra ingredientes como por exemplo, polvilho, para fazer pão de queijo aonde mora? Apesar de nunca ter gostado de cozinhar no Brasil, certamente por causa do corre corre e do cansaço, aqui na China eu passei a cozinhar todos os dias. Não apenas porque as meninas e o marido preferem, mas também porque é uma forma de fazer algo especial e com carinho para a família. Em casa temos arroz e feijão preto todos os dias. Também adoramos macarrão, nhoqui, churrasco, feijoada, estrogonofe, saladas, enfim, só faço comida brasileira mesmo. Diferentemente das brasileiras que já moram aqui em Xangai há mais de 6/7 anos, eu cheguei numa época em que a cidade oferece muitos artigos importados e alguns nacionais de ótima qualidade e similares ao que estávamos acostumados no Brasil. Por isso, apesar de termos trazido na mudança alguma comida, principalmente feijão e arroz, quando o estoque acabou, nós nos adaptamos bem aos produtos comprados aqui. É claro que os importados tem o preço sempre muito, mas muito mais alto, como são: o leite integral, o queijo, o palmito, o arroz, o feijão, a carne… mas em compensação temos a bons preços e qualidade: a farinha de trigo, o frango, o peixe, as frutas, verduras e legumes em geral, além de chocolates, sorvetes, iogurtes, camarão… as minhas meninas sentem muita falta apenas da farinha láctea, doce de leite (que eu faço cozinhando as latas de leite condensado) e de comer aipim frito (que aqui não tem mesmo para vender). A farinha de mandioca e o trigo de Kibe, todas nós trazemos do Brasil nas malas de viagem. Mas o polvilho tem, é chinês e muito bom! Não falta pão de queijo nas festas brasileiras, coxinhas de frango, kibes frito, até pastelzinhos com massa chinesa de fazer os famosos bolinhos de arroz. A gente foi se adaptando!rs Só não tem de jeito nenhum bacalhau salgado (que nós amamos!), paio, linguiça tipo mineira, pois aqui elas são adocicadas e horríveis. A carne seca só tem de porco, mas é boa também.  Você faz parte de alguma comunidade (onde mora) de mamães brasileiras que se reúnem para comemorar datas e passar a cultura brasileira e a língua portuguesa para as crianças? Viver como expatriada aqui em Shanghai é muito divertido, pois nossa Comunidade Brasileira é muito animada e é facílimo fazer novas amizades e assim, podermos ocupar o nosso tempo com muitas e variadas atividades que não teríamos tempo e nem oportunidadres no Brasil, como por exemplo, participar de bazar de caridade, não apenas comparecendo, mas trabalhando (muito) na criação das peças que serão depois vendidas para as estrangeiras (e muitas delas compradas por nós mesmas, rs), possibilitando arrecadar fundos para ajudar na realização de cirurgias infantis, principalmente de crianças chinesas órfãs. Além disso, ainda temos almoços de aniversário e de boas vindas às famílias recém chegadas, pelo Dia Internacional da Mulher, Dia das Mães, Sete de Setembro, Carnaval… enfim, costumamos ter muitas festas para ir com as crianças e com os maridos também. As campanhas de doação de roupas, calçados e brinquedos também são um sucesso de arrecadação e com isso, toda a família participa aprendendo a dividir e praticando o desapego. Nas festas organizadas pelas escolas internacionais ou naquelas em que a Comunidade Brasileira se encontra para comemorar o Dia da nossa Independência, também são um sucesso de público. As crianças e os adultos comparecem vestidos com nossos uniformes da selação brasileira de futebol. É sempre muito animado com shows de pagode e os chineses e os estrangeiros muitas vezes também usam nosso uniforme amarelo e azul com as 5 estrelinhas do penta, contagiados pela animação brasileira. Por favor, deixe uma mensagem para as outras mamães que também estão criando brasileirinhos mundo afora: Quando soubemos que viríamos morar por 2 anos aqui na China, nós ouvimos muitos comentários de amigos e parentes no Brasil, principalmente com relação as esquisitices que encontraríamos aqui e o quão difícil esta experiência seria por conta da diferença de costumes e cultura, principalmente por causa do ateísmo, dos problemas que enfrentaríamos para praticarmos a nossa fé cristã, os obstáculos para frequentarmos a nossa Igreja Católica, enfim, as informações que tínhamos as vezes eram desanimadoras. Porém, depois de mais de 4 anos vivendo aqui, o que eu posso citar como maior aprendizado desta bem sucedida experiência de vida pessoal e em família na China, é a mensagem que encontramos em Filipenses 4.13: “Posso todas as coisas naquele que me fortalece.”. Pois se realmente entregarmos nossa vida aos cuidados de Deus e sempre confiarmos que Ele estará no comando de tudo, não precisaremos ter medo dos desafios. Dificuldades sempre existirão, seja vivendo no nosso país ou fora dele, a verdade é que se abraçarmos estas oportunidades com fé e tivermos a coragem de viver melhor a nossa relação familiar com marido e filhos, unindo-nos ainda mais, todo o resto: trabalho, estudo, adaptação, diferença de cultura, dificuldades com o idioma, saudade da família… é possível ser superado com a confiança em Deus! Nós mulheres e mães possuímos esta capacidade de unir, dar força e tranquilidade, fé e esperança para os nossos maridos e filhos. Esta responsabilidade fará toda a diferença nesta aventura de morar fora do Brasil e garantirá o sucesso desta verdadeira equipe que é a nossa família. Sandra, não tenho como agradecer a fantástica entrevista que você nos ofereceu aqui no blog. Desejo a você e a sua família muito sucesso em todos os futuros projetos e um retorno feliz ao Brasil!

 

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