O blog das mamaes no Reino Unido

Criando Brasileirinhos Mundo Afora – Eslovenia

Neste mes de Novembro, o Amarelinha foi ate a Eslovenia para ficar sabendo um pouquinho da experiencia da Paloma, que conta como e ser mae brasileira, criando duas filhas em Liubliana.

Fale brevemente sobre voce e o que a levou a morar no pais onde esta:

Meu nome é Paloma Varón, tenho 34 anos, nasci em Salvador – Bahia, mas morei muitos anos em São Paulo e mais alguns em Brasília. Moro há 10 meses em Liubliana, capital da Eslovênia, para onde vim acompanhar o meu marido, que veio a trabalho.

Quantos filhos tem e qual a idade deles?

Tenho duas filhas: Cecília, 5 anos, nasceu em São Paulo e Clarice, 2 anos, nasceu em Brasília.

Como e ser uma mamae brasileira no pais onde mora? Aponte semelhancas e diferencas se comparado a mamaes locais.

A maior diferença de ser mãe aqui é não ter um grande apelo da mídia e da sociedade em torno de produtos (roupas, brinquedos etc.) para crianças. Em parte, porque não falamos o idioma fluentemente. Em outra, porque trata-se de um país que era comunista até 21 anos atrás, eles não têm um capitalismo selvagem nem consumismo desenfreado. As leis que regulamentam propaganda para crianças são mais eficazes,não existe propaganda na programação infantil, por exemplo. E isso me deixa aliviada, de verdade, porque a exposição a propagandas e hábitos de consumo completamente perversos para uma infância feliz, no Brasil, me aterrorizavam.

No mais, as diferenças são que aqui as mães (e os pais, que são bem mais participativos que os do Brasil) fazem tudo. Não existe empregada doméstica e babysitter é só para aqueles momentos em que nem a mãe nem o pai podem estar em casa com a criança (por questões de trabalho, estudo, uma atividade rápida), por poucas horas. Então eu, que sempre tive empregada ou pelo menos faxineira que ia 3 vezes por semana em casa, no Brasil, tive que me acostumar a fazer tudo, a cuidar de tudo, com a ajuda do meu marido, é claro.

Outra coisa: aqui não importa muito o tempo: as pessoas saem de casa para passear, levar as crianças para brincarem ao ar livre. Nos parques e praças você vê muitos pais (sem as mães) com as crianças. E muitas mães também, claro. Babá não existe. E ninguém grita com as crianças. É tudo muito mais silencioso. As crianças brincam, gritam, se excedem de vez em quando, os adultos nunca. O nível de ruídos é infinitamente menor que de um parque brasileiro.

Com quantos anos a crianca comeca a escola e qual o horario escolar? A crianca come na escola ou leva lancheira de casa? Escola particular ou publica?

Eu não posso falar com propriedade do sistema de ensino esloveno porque as minhas filhas estudam em uma escola internacional francesa. O que eu sei é que a licença-maternidade aqui é de 12 meses, sendo que começa quando a gestante completa 36 semanas. Existem creches do governo para bebês a partir de 11 meses, mas aqui na capital é difícil achar vaga e eles privilegiam as crianças cujas mães trabalham e têm menores salários, até porque o jardim de infância não é obrigatório. Para o período da creche, as famílias pagam um valor que depende da renda familiar. Ou seja, os mais ricos pagam mais e os mais pobres pagam menos (ou nada). A partir dos 6 anos de idade, a educação é obrigatória e gratuita em escola pública. Não existem escolas particulares, salvo as estrangeiras (francesa, inglesa, americana), mas existem creches particulares, já que as públicas não dão conta da grande demanda e as famílias mais ricas não encontram vagas facilmente, então acabam colocando nas particulares, que às vezes custam menos que as públicas (sim, porque dependem do salário), mas o nível pode não ser tão bom.

Sobre lanches nas escolas eslovenas, a criança tem direito a quatro refeições na escola: café da manhã, lanche da manhã, almoço e lanche da tarde. As refeições são todas fornecidas pela escola, mas os pais podem escolher quais refeições os filhos vão fazer na escola. Para o café da manhã, por exemplo, só vão as crianças cujos pais trabalham muito cedo. A escolarização começa às 8:30, mas desde as 7:00h a escola recebe alunos. Ao final do mês, os pais pagam uma taxa pelas refeições (o ensino não é pago, as refeições, sim). Na escola francesa, acontece o mesmo. As minhas filhas tomam o lanche da manhã e almoçam lá. Eu as busco às 15:30, na hora do lanche da tarde, que elas tomam em casa.

Voce trabalha ou e mamae em tempo integral? Voce tem empregada/diarista – como e a sua rotina emprego/escola/casa?

Eu não tenho trabalho formal. Trabalho de casa, como freelancer (sou jornalista) e voluntária em movimentos sociais. Como qualquer mãe que trabalha em casa, procuro fazê-lo nos momentos em que elas estão na escola ou dormindo, tentando equilibrar as coisas. Além disso, estudo esloveno (que é uma língua bem difícil) e tenho outras atividades por aqui. Não temos empregada (aqui não existe) nem faxineira, que existe, mas é cara. Eu faço a maior parte do trabalho e o meu marido, que trabalha bastante, tem tarefas específicas dentro de casa.

Que lingua e falada na sua casa, no caso do seu marido nao ser brasileiro?

Meu marido é brasileiro, então só falamos em português.

O/s seu/s filho/s falam portugues? Como voce passa a cultura brasileira e a lingua para os seu/s filho/s?

Ambas nasceram no Brasil e falam português conosco e entre si. Confesso que tenho um receio de, com a entrada da caçula na escola francesa, em setembro, que elas comecem a falar em francês entre si. Mas o português é tão dominante aqui em casa que acho que isso não vai acontecer. Elas sabem que francês é na escola e português em casa, embora mais e mais palavras francesas estejam fazendo parte do vocabulário de ambas, mesmo em frases em português.

Eu passo a nossa cultura para elas principalmente por meio de livros (adoramos ler histórias) e DVDs. Ouvimos muita música brasileira também.

Como sao comemorados os aniversarios infantis no pais onde mora? Voce celebra o dos seus filhos “a brasileira”?

Os aniversários aqui são comemorados de forma bem simples. Não existe decoração, poucas crianças são convidadas, tem hora para começar e terminar (e isso é seguido por todos) e as crianças maiores ficam sozinhas na festa, sem os pais. As comidas oferecidas são poucas, pouquíssimos doces. Tem frutas, legumes (sim, legumes!) e salgados. Não tem lembrancinhas. Eles também não batem palmas quando cantam parabéns. Mas a festa é toda pensada para a criança, que é quem escolhe os convidados (são poucos, mas os pais deixam as crianças escolherem). E sempre tem atividades para fazer com os amigos.

No nosso caso, estamos comemorando mais à eslovena mesmo, com alguns toques brasileiros. Eu já vinha vendo com olhos críticos os excessos das festas no Brasil, os altos gastos e a pouca preocupação com a diversão genuína das crianças. Já vinha comemorando os aniversários das minhas filhas em casa ou locais abertos, de forma mais simples. Então, aqui, não foi difícil para mim mudar a forma de comemoração.

Para a festa da minha caçula, fiz decoração, mas bem pouca, feita por mim mesma. Fiz brigadeiro, mas tinha muito mais frutas. Não teve refrigerante, mas limonada. Na hora dos parabéns, cantamos em português, esloveno e holandês (tinha convidados holandeses), mas fizemos questão de bater palmas.

A Cecília fez 5 anos aqui, mas, como já tínhamos comemorado no Brasil, fiz um bolo simples e mandei para a escola. Para o próximo ano, quando ela fizer 6, teremos uma festinha à eslovena e talvez a única diferença em relação à maioria das festas daqui é que ela convide todos os colegas de sala e não só alguns. Mas aí não poderá ser em casa. Ou seja, se por um lado fico com pena de não convidar todos os colegas, por outro super entendo as mães que restringem, afinal não é fácil ter 20 crianças na sua casa ao mesmo tempo. E ela faz aniversário em fevereiro, o mês mais frio do inverno, não temos a possibilidade de usar um parque ou jardim.

Como voce lida com a falta da familia por perto ( pelo menos da sua parte se nao tiver ninguem)? Com que frequencia voce leva os seus filhos ao Brasil?

Tive uma filha em São Paulo e outra em Brasília, e minha família mais próxima mora em Salvador, logo já estou acostumada a não tê-los por perto, a não poder deixar a Ciça na casa da avó, tudo tem que ser mais planejado, tem que chamar babysitter, tem que acertar datas e horários de saída com antecedência. Enfim, já estava meio acostumada a isso. Agora, a distância só aumentou um pouco. Vamos para o Brasil no ano que vem, mas acho que a média deve ser a cada 2 anos, não sei ainda. De qualquer forma, nossa família também tem nos visitado, o que ajuda a aplacar as saudades. No dia a dia, usamos Skype (muito), email, gtalk, Facebook e whatsapp.

Voce cozinha culinaria brasileira? Que tipo de pratos voce faz em casa para a familia? Voce encontra ingredientes como por exemplo, polvilho, para fazer pao de queijo, onde mora?

No Brasil, a gente comia arroz e feijão quase todos os dias. Como gosto muito, tenho tentado manter a “tradição” aqui. Arroz e feijão são fáceis de achar, embora o feijão preto nem tanto (aqui é mais comum o branco ou o vermelho), mas eu consigo comprar. Farinha de mandioca não tem, mas eu trouxe um bom carregamento do Brasil e peço para as visitas trazerem, quando vêm. Trouxe massa pronta para pão de queijo, mas é uma “comida” sem a qual eu vivo bem, tanto que só fiz uma vez. Sei que aqui vende farinha de tapioca (da Tailândia!) e uma amiga brasileira fez pão de queijo com esta farinha. Disse que ficou melhor que o feito com a tal massa pronta. Eu sinto falta (mas não muita) de pratos baianos que eu não sei cozinhar, como cozido, vatapá, caruru. Aqui não tem azeite de dendê (fundamental para a maioria dos pratos baianos). Também não tem a carne seca que usamos para fazer feijoada. Nem couve. Então a gente improvisa e faz com as carnes daqui. No lufar da couve, fazemos acelga. E assim vamos improvisando. Em compensação, gostei muito da comida sérvia, que é bem comum aqui, e tenho feito algumas coisas em casa, como cevapcici, mas adapto ao nosso gosto, trocando o acompanhamento deles (pão ou batata) por arroz.

Voce faz parte de alguma comunidade (onde mora) de mamaes brasileiras que se reunem para comemorar datas e passar a cultura brasileira e lingua portuguesa para as criancas?

Nós temos um grupo informal de brasileiros na Eslovênia. Somos apenas 80 e já conheço boa parte pessoalmnete. Outros, conheço só pelo Facebook. Tenho uma amiga que tem um blog sobre a Eslovênia chamado Eslovenia Brasil e ela organizou um almoço para reunir os brasileiros que vivem aqui menos de 2 meses depois de chegarmos, o que me ajudou muito. Daí foi só estreitar os laços. A gente comemorou o São João juntos (aqui não comemoram), foi uma festa linda. No mais, as outras datas a gente comemora em família mesmo, mas sempre tentamos fazer algo com os brasileiros que têm filhos de idades próximas dos nossos (e vivem perto, já que a maioria mora fora da capital).

Por favor, deixe uma mensagem para as outras mamaes que tambem estao Criando Brasileirinhos Mundo Afora.

Para outras mães brasileiras expatriadas como eu, digo que acho importante manter os traços da nossa cultura com os quais nos identificamos. Não adianta manter por manter, as coisas têm que ter algum sentido (afetivo, de preferência) para que as crianças embarquem na história e tenham curiosidade de saber mais sobre o nosso país. Por outro lado, acho que a língua é um bem a ser preservado. Ou seja, mesmo que no dia-a-dia não usemos o português na rua ou com o parceiro, acho importante deixar este legado para os nossos filhos. Ainda que eles não demonstrem muita vontade de falar português agora, no futuro agradecerão por crescerem bilingues (ou trilingues), já que uma língua a mais é sempre bom, ainda mais se houver uma relação afetiva com ela. Você vê que há pessoas (como eu, já que meu pai é colombiano, mas nunca falou comigo em espanhol) que se ressentem de não terem sido criadas no bilinguismo, mas nunca verá o contrário, alguém reclamando que o pai ou a mãe lhes ensinaram outra língua na infância. A língua é um patrimônio que levamos por toda a vida e é a nossa maior ligação com o nosso país, além dos nossos parentes que ficaram lá, é claro.

Paloma, muitissimo obrigada pela entrevista, rica de conteudo. Concordo quando voce disse que a lingua deve ser mantida e passada de geracao para geracao e que a relacao afetiva e um fator importante para que isso aconteca.

A Paloma escreve no blog Foto Cecilia, onde conta as aventuras das filhas e tambem assuntos sobre maternidade.

5 Responses to Criando Brasileirinhos Mundo Afora – Eslovenia

  1. Adorei, Ann, ficou ótimo! Só para dizer que, depois de conceder esta entrevista, fiquei com tanta vontade de comer uma que fiz. Sim, fiz uma moqueca diferente, “à eslovena”, sem azeite de dendê e sem leite de coco (que até vende nos supermercados daqui, mas eu não tinha em casa), mas com muitos temperos e ficou uma delícia. Pronto, matei a vontade por um tempo!
    Beijos

  2. Livia says:

    Que delícia ler este post e ver como Paloma está se saindo bem como uma mãe que cria suas meninas fora. Me lembro de nossos papos e troca de experiência sobre este assunto, já que eu estou há mais tempo em outro país. Eu tinha certeza absoluta que daria tudo certo e vc seria feliz com Bernardo, Ciça e Cali nesta bela Ljubljana! Bjs!

  3. fernanda says:

    Parabéns Paloma, vejo que você, assim como eu, já está bem adaptada em Ljubljana…
    acho que a vida aqui é realmente muito boa, e que como brasileiros, só temos a ganhar com a possibilidade de conhecer outros lugares, tão distantes do nosso Brasil, mas com muito a nos ensinar!!! Tirando os 8 meses de frio, o resto a gente tira de letra e sai ganhando muito….abraços, Fe

  4. karen says:

    Adorei a entrevista, parabéns Ann e Paloma!
    Fico imaginando como seria morar num país ainda mais diferente do que a Alemanha. Aqui tenho a sorte de encontrar praticamente de tudo. Até dendê (se tiver loja de africanos por aí, dê uma entradinha… pode ser que você ache).
    Já os aniversários sao bem parecidos, inclusive a ausência de palmas na hora do parabéns :-)

  5. Oi Paloma! Acho sua experiência inspiradora! Estou apenas começando nesse universo de maternidade expatriada, e estou gostando bastante, apesar de bater uma saudade enoooorme da família!
    Um beijo grande pra todos vocês!

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